terça-feira, 24 de março de 2009

Conversa de Botequim


Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa

uma boa média que não seja requentada,

um pão bem quente com manteiga a beça,

um guardanapo e um copo d’água bem gelado.

Feche a porta da direita com muito cuidado

que não estou disposto a ficar exposto ao sol.

Vá perguntar ao seu freguês do lado

qual foi o resultado do futebol.

Se você ficar limpando a mesa

não me levanto nem pago a despesa...

Vá pedir ao seu patrão

uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão.

Não se esqueça de me dar o palito

e um cigarro pra espantar o mosquito.

Vá dizer ao charuteiro

que me empreste umas revistas,

um cinzeiro e um isqueiro.

Telefone ao menos uma vez

para o número 34-4333

e ordene ao seu Orestes

que me mande um guarda-chuva

aqui pro nosso escritório.

Seu garçom me empreste algum dinheiro

que eu deixei o meu com o bicheiro.

Noel Rosa

segunda-feira, 23 de março de 2009

“A polêmica mais famosa do samba.”

Há quem afirme que a briga entre Noel Rosa e Wilson Batista, nunca houve. Outros garantem que uma bela morena foi responsável por ela. Os pesquisadores mais puristas - segundo a narrativa - dizem que Noel Rosa se teria batido com um quase menino, mal saído das fraldas, recém-chegado de Campos, candidato a malandro, aprendiz de compositor e fazendo qualquer coisa para se tornar conhecido. Amigo de famosos e famoso ele próprio, Noel que já era Noel Rosa, com nome feito no meio radiofônico, compositor respeitado, freqüentador da Lapa, onde galanteava as moças com suas melodias e musicava poemas ao sereno da madrugada! Já o quase menino, mal saído das fraldas, recém-chegado de Campos, chamado Wilson Batista, era ainda um gato selvagem que não levava desaforo para casa, querendo impor-se junto à malandragem – quase um Acerola ou Laranjinha – buscava a fama e já tinha seu nome comentado a boas bocas, entre as mulheres da noite do que nos meios musicais, começando a partir daí a desavença, iniciada por Noel. Wilson compôs a música “Lenço no pescoço”: “Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco e desafio/ Eu tenho orgulho/ Em ser tão vadio...”.

Seria um samba como outro qualquer, isso, se Wilson com ginga e a manha de malandro, não tivesse se engraçado com a tal morena que freqüentava a Lapa e que atraiu também as atenções de Noel Rosa. Na hora de conferir quem era quem, os argumentos do desconhecido foram mais fortes aos ouvidos da morena que os sambas do famoso poeta da Vila Isabel. Wilson ficou com a moça e Noel com o desapontamento. Mas, como o maior vacilo de um novo malandro é esquecer que existem velhos malandros, Noel revidou na primeira oportunidade, na melhor ocasião e com a arma que ele melhor sabia manejar: o samba! Compôs, então, com endereço certo, “Rapaz Folgado”: “Deixa de arrastar o teu tamanco/ Pois tamanco nunca foi sandália/ E tira do pescoço o lenço branco/ Compra sapato e gravata/ joga fora essa navalha...”! Ah, não deu outra, o falatório correu de boca em boca nos meios freqüentados pelos compositores, onde todos perceberam que o assunto era com o, agora conhecido, Wilson. Como se diz no bom popular que não se cutuca onça com vara curta, Noel provocava mesmo. E provocação Wilson não engolia! Analisando toda a situação, batendo em sua caixa de fósforos e escrevendo suas letras em papel de maço de cigarros, em seguida compôs a tréplica, intitulada como: “Mocinho da Vila”: “Você que é mocinho da Vila/ Fala muito em violão/ Barracão e outras coisas mais/ Se não quiser perder seu nome/ Cuide do seu microfone...”. Ih! Depois dessa, Noel tirou o chapéu e acabou por conhecer Wilson.

Anos depois, compõe o conhecidíssimo “Feitiço da Vila”: “Quem nasce lá Vila/ nem sequer vacila/ Ao abraçar o samba/ Que faz dançar os galhos do arvoredo/ E faz a lua nascer mais cedo...”. “Wilson que dizia estar quieto e que até já havia esquecido do tal Noel, não se agüentou e retornou a polêmica, fazendo “Conversa Fiada”:” É conversa fiada/ Dizerem que o samba/ Na Vila é tranqüila...”.

Em meados de 1936, Noel compõe o samba “Palpite Infeliz”, que era uma clara resposta a Wilson: “Quem é você que não sabe o que diz? / Meu Deus do céu, que palpite infeliz!... Só quer mostrar que faz samba também! / Fazer poema lá na Vila é um brinquedo!...”. Como resposta, Wilson apelou feio na volta, insinuando o defeito no queixo de Noel, com “Frankenstein da Vila”: “Boa impressão nunca se tem/ Quando se encontra certo alguém/ Que até parece o Frankenstein...”!

Noel, com toda a sua humildade, calou-se definitivamente. Wilson ainda tentou com “Terra de Cego”: “És o abafa da Vila, eu bem sei/ Mas na terra de cego/ Quem tem um olho é Rei”.

Inutilmente. Estava encerrada a polêmica.

Salve, salve simpatia!

sábado, 21 de março de 2009

A primeira escola de samba do Brasil: sua origem e fundação.

Criada em 1928, no bairro carioca do Estácio de Sá, a Deixa Falar, foi à primeira escola do Brasil, tendo como fundador Ismael Silva. Nos arredores do bloco funcionava uma escola normal, que formava professores para uma rede escolar, daí Ismael resolveu batizar seu grupo de escola de Samba, já que formaria professores de samba. E olha no que deu, muitos mestres nasceram e fizeram carreira na escola, surgindo também novos instrumentos e novidades que modificariam para sempre a história do samba e do carnaval.

Em sua estréia na Praça Onze, a bateria da Deixa Falar era formada por tamborins, latas de manteiga, cuícas e pandeiros. Mas ainda assim, faltava um instrumento de marcação, que comandasse a escola e fosse ouvido por todos os componentes. Conhecido como *Bidê, Alcebíades Barcelos, observando o som das grandes latas de manteiga usadas na percussão, resolveu melhorá-las, colocando dois aros, fixando um por dentro e outro por fora. Segurou o couro com tachas ao redor e pronto, foi inventado o surdo de marcação, creditado a Bidê a invenção, assim como o tamborim, que o próprio dizia: “Esse não tenho certeza se inventei... mas o que me lembro, é que desde molequinho, já fazia; encourava e tocava na rua, sem nenhum bloco. Só ouvia as pessoas perguntando que instrumento era aquele?!”. A Deixa Falar entrou na praça falando mais alto.

(*) Um pouco mais sobre Bidê: De origem humilde, nasceu em 25 de julho de 1902, Alcebíades Barcelos foi um dos maiores compositores da história do samba. Passou a freqüentar as rodas de samba do bairro e acabou sendo um dos fundadores da Deixa Falar. No final da década de 20, teve a sábia decisão de largar a profissão de sapateiro passando a viver somente da música, podendo assim, contribuir e muito para a evolução do samba. Em março de 1975, praticamente cego e paralítico, aos 73 anos, Bidê morre, deixando invenções, que permanecem vivas no nosso mais genuíno som brasileiro.

Salve, salve simpatia!

Axé, mestre Candeia!

Rio de Janeiro, bairro de Oswaldo Cruz, dia 17/08/1935, nasce Antônio Candeia Filho.
Para nós, Candeia! Importante compositor, sambista, cantor e um dos maiores defensores da cultura afro-brasileira. Filho de sambista, seu pai também era flautista, tipógrafo e, segundo alguns, criador das Comissões de Frente das escolas de samba. Nascido em casa de bamba, os aniversários de Candeia eram regados com feijoada, limão e muito partido alto. Logo aprendeu a tocar violão e cavaquinho, onde nos domingos junto com seu pai e os amigos, passavam as tardes debaixo das Amendoeiras do bairro de Oswaldo Cruz nas rodas de samba e choro. Ainda menino, Candeia conheceu a Capoeira e começou a jogar. Também freqüentava assiduamente os terreiros de candomblé. Jamais esqueceu o dia em que pela 1ª vez visitou a sua escola de coração. Na época a sede ainda era no antigo Bar do Nozinho, ponto de encontro obrigatório da turma de Oswaldo Cruz.

À medida que crescia, o jovem Candeia ganhava mais intimidade com o samba. Nas festas de Dona Esther (casa onde se reunia os sambistas), Candeia Filho como era conhecido quando pequeno, tinha contato com alguns dos maiores sambistas de Oswaldo Cruz e de toda a cidade na época, que vinham para o bairro participar dos famosos encontros da Tia festeira. Dentre os nomes, estavam: Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Zé da Zilda e Luperce Miranda. Neste mesmo local, conhecerá também outras manifestações culturais como o Jongo. Como membro da escola de samba “Vai como pode”, participou do núcleo original de sambistas que fundou a G.R.E.S. Portela e, no ano de 1953, compôs o seu 1º samba enredo para a nova escola “Seis Datas Magnas”, em parceria com Altair Prego. Foi quando a Portela realizou a façanha inédita de obter nota máxima em todos os quesitos do desfile (total de 400 pontos). Candeia era também integrante assíduo da Ala dos Impossíveis. Em um fato curioso, certa vez, Candeia e seus amigos, inconformados com a peruca de sisal que teriam que usar durante o desfile, arrumaram um jeito de disfarçar o acessório. Criaram uma coreografia para que o cabelo passasse desapercebido durante o desfile. Alguém tem alguma dúvida? A imprensa fez enormes elogios à novidade e a experiência foi repetida com expectativa nos anos seguintes. Estava criada a coreografia de alas nas escolas de samba. Na década de 60, dirigiu o conjunto “Mensageiros do Samba”, que desceu da extremidade do morro para a cidade se apresentando no famoso e badalado Restaurante ZICARTOLA. Oportunidade esta, que fez com que a gravadora Phillipis levasse o conjunto para o estúdio, gravando o seu 1º LP. Em 1961, buscando um emprego seguro, Candeia consegue ser aprovado no concurso para a polícia, ganhando assim, a fama de severo, durão, valente, sempre disposto a cumprir seu trabalho. Durante sua passagem pela polícia, viu em nome do dever, sua relação com alguns antigos amigos serem modificadas.

Candeia foi o responsável pela prisão do famoso Neném Russo, do Engenho da Rainha. No dia 13/12/1965, num episódio até hoje mal-explicado, por ter esbofeteado uma prostituta numa batida policial (no qual a mesma rogou-lhe uma praga), Candeia é baleado nas costas após uma confusão com três ocupantes de um caminhão. Levado para o Hospital Souza Aguiar, desenganado pelos médicos, Candeia consegue sobreviver. Várias cirurgias trouxeram algumas melhorias, mas jamais voltaria a ter sensibilidade da cintura para baixo. Candeia, assim, estava condenado a viver pelo resto da vida “sentado em trono de rei”, nome
e trecho de uma de suas composições (...sentado em trono de rei/ ou aqui nessa cadeira...).

Salve, salve simpatia!!!