Há quem afirme que a briga entre Noel Rosa e Wilson Batista, nunca houve. Outros garantem que uma bela morena foi responsável por ela. Os pesquisadores mais puristas - segundo a narrativa - dizem que Noel Rosa se teria batido com um quase menino, mal saído das fraldas, recém-chegado de Campos, candidato a malandro, aprendiz de compositor e fazendo qualquer coisa para se tornar conhecido. Amigo de famosos e famoso ele próprio, Noel que já era Noel Rosa, com nome feito no meio radiofônico, compositor respeitado, freqüentador da Lapa, onde galanteava as moças com suas melodias e musicava poemas ao sereno da madrugada! Já o quase menino, mal saído das fraldas, recém-chegado de Campos, chamado Wilson Batista, era ainda um gato selvagem que não levava desaforo para casa, querendo impor-se junto à malandragem – quase um Acerola ou Laranjinha – buscava a fama e já tinha seu nome comentado a boas bocas, entre as mulheres da noite do que nos meios musicais, começando a partir daí a desavença, iniciada por Noel. Wilson compôs a música “Lenço no pescoço”: “Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco e desafio/ Eu tenho orgulho/ Em ser tão vadio...”.
Seria um samba como outro qualquer, isso, se Wilson com ginga e a manha de malandro, não tivesse se engraçado com a tal morena que freqüentava a Lapa e que atraiu também as atenções de Noel Rosa. Na hora de conferir quem era quem, os argumentos do desconhecido foram mais fortes aos ouvidos da morena que os sambas do famoso poeta da Vila Isabel. Wilson ficou com a moça e Noel com o desapontamento. Mas, como o maior vacilo de um novo malandro é esquecer que existem velhos malandros, Noel revidou na primeira oportunidade, na melhor ocasião e com a arma que ele melhor sabia manejar: o samba! Compôs, então, com endereço certo, “Rapaz Folgado”: “Deixa de arrastar o teu tamanco/ Pois tamanco nunca foi sandália/ E tira do pescoço o lenço branco/ Compra sapato e gravata/ joga fora essa navalha...”! Ah, não deu outra, o falatório correu de boca em boca nos meios freqüentados pelos compositores, onde todos perceberam que o assunto era com o, agora conhecido, Wilson. Como se diz no bom popular que não se cutuca onça com vara curta, Noel provocava mesmo. E provocação Wilson não engolia! Analisando toda a situação, batendo em sua caixa de fósforos e escrevendo suas letras em papel de maço de cigarros, em seguida compôs a tréplica, intitulada como: “Mocinho da Vila”: “Você que é mocinho da Vila/ Fala muito em violão/ Barracão e outras coisas mais/ Se não quiser perder seu nome/ Cuide do seu microfone...”. Ih! Depois dessa, Noel tirou o chapéu e acabou por conhecer Wilson.
Anos depois, compõe o conhecidíssimo “Feitiço da Vila”: “Quem nasce lá Vila/ nem sequer vacila/ Ao abraçar o samba/ Que faz dançar os galhos do arvoredo/ E faz a lua nascer mais cedo...”. “Wilson que dizia estar quieto e que até já havia esquecido do tal Noel, não se agüentou e retornou a polêmica, fazendo “Conversa Fiada”:” É conversa fiada/ Dizerem que o samba/ Na Vila é tranqüila...”.
Em meados de 1936, Noel compõe o samba “Palpite Infeliz”, que era uma clara resposta a Wilson: “Quem é você que não sabe o que diz? / Meu Deus do céu, que palpite infeliz!... Só quer mostrar que faz samba também! / Fazer poema lá na Vila é um brinquedo!...”. Como resposta, Wilson apelou feio na volta, insinuando o defeito no queixo de Noel, com “Frankenstein da Vila”: “Boa impressão nunca se tem/ Quando se encontra certo alguém/ Que até parece o Frankenstein...”!
Noel, com toda a sua humildade, calou-se definitivamente. Wilson ainda tentou com “Terra de Cego”: “És o abafa da Vila, eu bem sei/ Mas na terra de cego/ Quem tem um olho é Rei”.
Inutilmente. Estava encerrada a polêmica.
Salve, salve simpatia!